27/10/2018

[Resenha] O Escravo de Capela



Ficha Técnica:



O Escravo de Capela

Autor: Marcos DeBrito
Ano de publicação: 2017
Nº de páginas: 288


AAAAAAAAHHHHH


Essa é a única reação que consigo esboçar após ler um livrão maravilhoso desses. Minhas expectativas já estavam bem altas mas, mais uma vez, Marcos DeBrito mostrou-se um autor digno de receber o Tocantins inteiro.

O folclore brasileiro é muito, muito rico. Não pense você, leitor, que só mitologia grega, romana, egípcia, nórdica, etc., têm suas histórias maravilhosas. Os mitos tupiniquins são recorrentes em nossas vidas. Desde pequenos, ouvimos falar no Boitatá (o animalzinho de estimação do Professor Girafales), Mula Sem Cabeça, Iara, Boto, Curupira e outras centenas de figuras mitológicas. E aqui está ele, Marcos DeBrito, mostrando que é possível dar um ar totalmente novo à personagens já conhecidos e, mesmo assim, criar algo original e épico.

O livro nos leva para um momento muito ruim e triste da nossa história, a era da escravidão. Somos apresentados à família Cunha Vasconselos, donos da Fazenda Capela. Os Cunha Vasconselos são comerciantes de açúcar. Para se obter o açúcar, é necessário colher a cana. E o autor deixa isso muito claro, detalhando como os escravos trabalham debaixo de um sol escaldante, sob condições precárias.

E é aqui que conhecemos o protagonista de nosso livro, Sabola Citiwala, vindo do Congo. Sabola não fala português, então acaba conversando apenas em dialetos africanos com os outros escravos. Porém, os senhores da fazenda odeiam esses dialetos e, se pegam algum negro falando qualquer coisa que não seja português, suas costas serão marcadas. Mas Sabola é diferente dos outros escravos. Ele quer sua liberdade, quer sair daquele lugar a qualquer custo, mas acaba descobrindo, da pior forma possível, o que acontece com quem questiona as ordens de um Cunha Vasconselos.



Aqui, vemos o auge escravocrata, e o autor usa isso a seu favor. Sim, o livro é pesado e, se você não tem estômago pra isso, espere ter. Marcos faz jus ao período em que seu livro se passa. Cada cena de tortura é muito bem detalhada e, confesso, em algumas cenas, senti repulsa, e desejei que acontecesse como numa novela: cortasse a cena da tortura.

Mas eu não podia parar o autor, e não queria. A história toma um rumo surpreendente. Aqui, o autor não preza tanto pela descrição do ambiente, mas compensa-nos, dando uma aula de criação de personagens. Cada personagem é muito bem construído, e cada sentimento que esse personagem carrega é sugado até a última gota. Ódio, repulsa, amor, raiva, vingança. Vemos isso em cada um dos personagens, e é isso que leva a história pra frente.

Mais uma vez, Marcos DeBrito mostrou por que é um dos melhores autores nacionais de terror da atualidade. Com seu tom poético, respeitando a linguagem da época em que o livro se passa, ele apresenta uma versão totalmente nova de um personagem tão conhecido, e acerta em cheio. E, no fim, somos presenteados com vários plot twists, mas existe um, e você saberá qual, que é um verdadeiro tapa na nossa cara. Marcos escreveu a história em páginas manchadas de sangue.

A diagramação do livro está simplesmente impecável, mostrando por que a Faro é uma das melhores editoras no quesito. Se você gosta de terror, O Escravo de Capela é leitura obrigatória. Com certeza, a melhor leitura de 2018, além de ser uma das mais belas capas da estante.

Nota:




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