25/04/2018

[Entrevista] Cesar Bravo



Todo mundo ama a Caveirinha, e isso é indiscutível. Mas, e se você tivesse a oportunidade de conversar com um autor da DarkSide? Seria bem incrível, né?

Pois isso aconteceu! Hoje, trago uma entrevista com Cesar Bravo, autor do livro Ultra Carnem. Ninguém ousa discutir o talento desse autor, que tem inspirado vários autores nacionais de terror. Confiram a entrevista!



Primeiramente, gostaria de te agradecer por ter aceitado o convite. Fique à vontade. Beba um pouco de café e pegue algumas bolachas (é bolacha, biscoito só de polvilho).
Eu que agradeço, Jess! É um prazer falar um pouquinho com você. À propósito, bebo café como um maluco, e adoro bolacha (sim, é bolacha mesmo).

Em sua biografia consta que você já trabalhou em diversas áreas, além de ser farmacêutico por formação. Quando percebeu que contar histórias era o que você gostava de fazer? E o que te motiva a continuar escrevendo?
Bem, eu sempre dei duro, sempre gostei de trabalhar. Tentei ganhar a vida de diversas formas, mas em um certo momento percebi que todas aquelas histórias guardadas estavam me implodindo. Eu costumava acordar no meio da madrugada, com uma sensação de culpa, um incômodo inexplicável; demorava a voltar a dormir e às vezes eu sequer conseguia. Hoje sei que o motivo era bloquear minha escrita, minha imaginação. Escrever e viver da criatividade é uma dádiva, mas é preciso assumir e honrar essa conquista, é o que me motiva a continuar escrevendo: gosto de onde estou hoje, de ver meus livros, minhas ideias nas mãos dos leitores.

Em relação a outros gêneros, terror não é tão lido no Brasil e, mesmo assim, você seguiu em frente. Como foi essa parte da jornada? Você recebeu apoio de amigos e familiares?
O terror é bastante consumido no Brasil, o que é bem menos expressivo é a venda de obras nacionais. Para investir no terror, você precisa amar o gênero, porque realmente não é uma tarefa fácil. Autores de horror frequentemente tocam feridas profundas, geram incômodo, a tarefa mais árdua de um ficcionista é levantar questões e, ao mesmo tempo, fornecer uma válvula de escape para a rotina massacrante do dia a dia. Para isso é preciso técnica, e principalmente coragem, é preciso dizer a verdade. 

No começo eu contei apenas comigo mesmo, porque não estava pronto para dividir minhas histórias terríveis com as pessoas mais próximas. O apoio veio um pouco mais tarde, quando eu me senti seguro o bastante para compartilhar o que estava produzindo. Acredito que esse isolamento inicial foi um diferencial, eu tinha uma liberdade de pensamento e escrita que muitos poucos autores conseguem; eu era realmente um desconhecido, alguém que “surgiu do nada”. Entenda, se por um lado a solidão é angustiante, por outro ela te fortalece um bocado. Hoje conto com o apoio de todos eles, e me orgulho muito por ter esse reconhecimento de amigos e familiares. No começo éramos eu, a minha esposa e toda insegurança que o futuro pode prometer.

Comercialmente comecei na Amazon, e nesse ponto do caminho tive muitos parceiros. Blogueiros, youtubers e amigos que ajudaram (e ainda ajudam) a divulgar meu nome e meus livros. Chegar à publicação física foi consequência de todo esse trabalho conjunto.


Autores de terror ainda estão encontrando seu espacinho na escuridão (nada de luz desse lado da ponte), e grandes editoras estão contribuindo para isso, publicando livros de terror de autores nacionais. Acha que isso é uma motivação a mais para autores iniciantes?
Esse é o melhor momento que o mercado vive há muito tempo. O que atrapalha um pouco é a crise econômica e a pouca vergonha que reina na política desse país, mas o mercado editorial está fazendo o oposto, e vem se empenhado em encontrar e valorizar novos talentos. O que ainda falta é a profissionalização dos autores, mas isso é um detalhe que logo mudará. As editoras estão contratando, oficinas de escrita e autores dedicados aparecem todas as semanas, é um momento muito bom para conquistar um lugar nesse mercado.

Você tem um livro publicado pela DarkSide Books. Todo leitor quer os livros dela, e todo autor quer ser publicado por ela. Como foram os primeiros contatos? Como você reagiu quando percebeu que era real?
Eu comecei a publicar meus trabalhos quase ao mesmo tempo em que a DarkSide surgiu. Lembro-me de ficar pensando por horas, com aquela sensação de “nunca vai acontecer comigo”. Mas também me lembro de um belo dia enfiar na minha cabeça que aquela era a editora onde eu queria estar. Tenho um lema na minha vida: “Vem fácil, vai fácil”, talvez esse tenha sido um dos motivos para eu ter apostado minhas fichas na DarkSide, porque eu queria estar ao lado deles, era extremamente motivador sonhar com essa possibilidade — e não era nada fácil...

Pelo que sei, um dos “Caveiras” leu meu trabalho na Amazon e gostou do que leu. A notícia sobre a parceria aconteceu em uma noite muito especial, quando meu telefone tocou e eu me vi falando com um dos editores. O que eu posso dizer? Acho que nunca dormi tão bem (quando eu consegui dormir, é claro). A ficha caiu algum tempo depois, quando eu finalmente vi meu livro impresso. Nesse ponto percebi que tinha alcançado algo que, até poucos meses atrás, eu considerava meu maior desafio.

Num geral, como você vê o mercado literário nacional, em relação a leitores e autores? O que poderia mudar?

Os leitores mandam em tudo, podem tudo e sabem de tudo. Ponto. Eles são os patrões e nós precisamos fazer nosso melhor, todos os dias, para receber nosso pagamento. Quanto aos meros mortais que escrevem (eu me incluo nessa), o caminho é a dedicação e a evolução constante. Muita leitura, muita escrita; material técnico, vídeos, e tudo o que puder nos profissionalizar ainda mais.

O que poderia melhorar muito a situação, na minha opinião, seria uma propaganda mais agressiva das editoras, para que realmente o autor nacional e o estrangeiro atuem em pé de igualdade. Também torço bastante para que outras mídias invistam em artistas nacionais — séries, filmes e obras de arte. Pelo que vejo, o consumidor de arte brasileiro está igualmente ansioso por isso.

Normalmente (não é necessariamente uma regra), todo autor de terror já passou por uma experiência sobrenatural, ou ao menos vivenciou algo mais esquisito do que o normal. Você já passou por algo assim?
Meu amigo, se eu te contasse a metade, você não dormiria essa noite (risos). Já passei algumas situações bem estranhas. Vultos, vozes, muitas vezes senti uma... presença. Se é boa ou ruim eu não faço ideia, mas reconheço os arrepios na pele e procuro pensar que é a minha musa inspiradora passando por perto.


Todo autor ama ter escrito seus livros, mas sempre há um favorito. Dentre os seus livros, qual você mais gostou de ter escrito? Qual é “o escolhido”?
O que mais me orgulho é um romance, ainda publicado unicamente em ebook, chamado Caverna de Ossos. Foi uma escrita difícil, principalmente por eu ser um autor mais jovem e bem pouco experiente. Meu preferido é Ultra Carnem, por conta da mitologia que foi criada, dos personagens, e pelo fato desse livro ter me colocado de vez no cenário com a edição incrível da DarkSide.

Como funciona sua rotina de escrita? Você costuma planejar todo o roteiro da história, ou planeja apenas pontos centrais, deixando que o resto corra por si só?
Eu tenho uma rotina rígida, no mínimo 2.000 palavras por dia. Minha escrita é bastante explosiva, eu raramente planejo algo além do capítulo seguinte. Gosto da descoberta, do erro e acerto, por mais trabalho que isso me dê nas revisões seguintes. Costumo ter uma cena inicial em mente, geralmente impactante, o resto aparece no dia a dia e as arestas são aparadas nas releituras.

E quanto aos seus projetos novos? Pode nos adiantar alguma coisa?
Posso adiantar que teremos algo novo para o segundo semestre. O resto é surpresa. Tenho trabalhado em vários projetos, então eu realmente não sei qual será o escolhido. Meu desejo é colocar mais um romance à venda, uma coletânea de contos e por que não uma HQ? Além de ser adaptado para a TV, obviamente — aberta e fechada, as duas ou nada! (se é para sonhar, que seja alto, pô!).

Qual seu livro favorito? E sua leitura atual?
Gosto muito da coleção Livros de Sangue, de Clive Barker. Minha leitura atual é HEX, de Thomas Olde Heuvelt, livro incrível.

Sinta-se à vontade para deixar algumas considerações finais.
Aproveito para agradecer por esse espaço e pelo interesse em meu trabalho. Escrever é bom, é parte fundamental da minha vida, mas receber o feedback dos leitores e colegas de escrita faz muita diferença. Aos leitores, deixo um agradecimento especial, porque eles são os patrões, mas são ótimos patrões. Aos colegas de escrita, acreditem em vocês mesmos, sejam criativos e escrevam com paixão (foi o que funcionou comigo). Forte abraço a todos! Sonhem alto, trabalhem duro e continuem acreditando na literatura.

Gostaram da entrevista? Deem uma olhada nos trabalhos do autor!

Caverna de Ossos
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