16/02/2018

[Curiosidades] O Homem de Somerton


O Caso Taman Shud, também conhecido como O Homem de Somerton, é mais um entre as centenas de casos que nunca serão resolvidos. O corpo do tal homem foi encontrado na praia de Somerton, em Adelaide, Austrália, no dia 1 de dezembro de 1948, às 6h00. Quem era o homem? Bom, esse é o primeiro dos mistérios, mas nem de longe o mais sinistro.

O patologista, John Burton Cleland, classificou o homem como sendo britânico, tendo entre 40 e 45 anos. Olhos e cabelos claros, com um leve tom de ruivo. Cerca de 1,80m, ombros largos e sem indicação de que fazia trabalho manual. Usava camisa branca, gravata, calça escura e sapatos. Mas, por que alguém iria à praia de roupa social? Suas roupas não possuíam etiqueta, e ele estava sem chapéu, o que era bem estranho para a época, ainda mais para alguém que usava um terno. Ele não estava com documentos, e nem mesmo sua arcada dentária foi reconhecida. Os oficiais levantaram a hipótese de suicídio.
De acordo com testemunhas, o tal homem misterioso estava dando uma voltinha na praia desde às oito da noite do dia anterior. Alguns casais pensaram que ele poderia estar morto, já que ficou imóvel durante algum tempo, e nem mesmo tentou espantar os mosquitos que se aproximaram. Porém, outro casal disse que sua posição poderia ter mudado, e logo cogitaram que ele poderia estar apenas dormindo, ou bêbado. Quando o corpo foi encontrado na manhã seguinte, as descrições batiam com os relatos das testemunhas. A autópsia revelou que a morte ocorreu por volta das duas da manhã.

O "X" marca o local onde o corpo foi encontrado


Seu braço esquerdo estava reto, enquanto o direito estava dobrado. Havia um cigarro intacto atrás de uma das orelhas e um outro cigarro, perto de seu rosto, fumado pela metade. Em seu bolso, encontraram um ticket de Adelaide para St. Leonards e um bilhete de trem, de segunda classe e que não fora utilizado, de Adelaide para Henley Beach. Também encontraram um pente de alumínio, um pacote de chicletes, um pacote de cigarros Army Club, mas que estava com cigarros Kensitas (algo como Doritos num pacote de Cebolitos. Não fazia sentido.) e uma caixa de fósforos. A parada de ônibus referente ao bilhete ficava a 250 metros do local onde o corpo fora encontrado.

Seus órgãos estavam alterados, o baço estava três vezes maior e rins e estômago estavam congestionados, além de outras coisas, o que levou à conclusão de que o misterioso homem não havia sido vítima de uma morte natural. Nesse momento a polícia começou a cogitar a hipótese de envenenamento. Embora os investigadores acreditassem que o homem teria sido envenenado, nenhum vestígio de qualquer agente estranho foi descoberto durante a autópsia.

Confira uma breve transcrição do laudo:

"O coração estava em seu tamanho normal, e normal em todos os demais aspectos (...) pequenos vasos incomuns de serem encontrados no cérebro eram facilmente discerníveis com congestão. A faringe estava congestionada, e o esôfago coberto por branqueamento das camadas superficiais da mucosa, com uma trilha medial de ulceração. O estômago estava profundamente congestionado (...) havia congestão também na 2ª metade do duodeno. Havia sangue misturado ao alimento no estômago. Ambos os rins estavam congestionados, e o fígado continha grande excesso de sangue em seus vasos (...) o baço apresentava inchaço expressivo (...) de aproximadamente 3 vezes seu tamanho normal (...) exame microscópico revelou a destruição de lóbulos do fígado (...) hemorragia gástrica aguda, congestão extensiva do fígado e baço, e congestão do cérebro."




Foi possível até mesmo descobrir o que ele havia comido algumas horas antes, um pastel. Entretanto, o patologista responsável não encontrou nenhuma substância suspeita em seu organismo. O envenenamento foi tido como causa principal, mas nada foi confirmado. A tal fotografia rodou o mundo, mas ninguém identificou o sujeito, nem mesmo a Scotland Yard. O cadáver foi embalsamado em 10 de dezembro de 1948.

Um inquérito legista conduzido por Thomas Erskine Cleland foi aberto para descobrir a causa da morte, e foi mantido assim até 19 de junho de 1949. O patologista investigador John Burton Cleland re-examinou o cadáver, e fez várias descobertas. Os sapatos do homem estavam consideravelmente limpos, e parecia que haviam sido engraxados recentemente, ao contrário do que se espera de alguém que vagou a noite toda na praia. Isso encaixou-se na teoria de que o corpo foi levado para a praia de Somerton após a morte do homem, considerando a falta de vômitos e convulsões, dois dos principais efeitos do envenenamento. Como ninguém conseguiu afirmar com 100% de certeza de que o morto era o mesmo homem que caminhava na praia na noite anterior, a teoria de que o corpo foi levado para a praia permaneceu aberta.

Thomas Cleland declarou: Eu não me surpreenderia se confirmasse que ele morreu envenenado, e que o veneno provavelmente foi um glicosídeo e que não foi administrado acidentalmente; o que eu não posso dizer é se foi administrado pelo próprio morto, ou por outra pessoa.




O professor de Fisiologia e Farmacologia, Cedric Stanton Hicks, da Universidade de Adelaide, testemunhou que um grupo de drogas, variante de uma droga grupal definida por ele como número um e, em particular, número dois, eram muito tóxicas em doses orais relativamente pequenas, que seriam praticamente impossíveis de serem identificadas, mesmo que suspeitassem de sua aplicação em primeiro lugar. Ele deu ao legista o nome de duas drogas, que foram incluídas no inquérito como "Prova C. 18". Tais drogas só foram divulgadas ao público nos anos 80, pois já era possível que qualquer um comprasse elas com um farmacêutico, sem justificar a razão.

Algo incomodava Hicks: a ausência do vômito. Ele afirmou que tal ausência não era desconhecida, mas não queria tirar uma conclusão precipitada sem ela. O professor afirmou que, se a morte ocorresse sete horas após a última vez em que o homem foi visto se mexendo, isso causaria a ingestão de uma dose maciça que não poderia ser detectada. O movimento do braço do homem, presenciado pelas testemunhas às 19h, pode ter sido a última convulsão antes de sua morte.

Até aquele momento, as autoridades definiram a situação como um mistério sem paralelos e acreditaram que a causa da morte jamais seria determinada. Um editorial de época chamou o caso de "um dos mistérios mais profundos da Austrália", analisando que, se a causa da morte do homem fora um veneno tão raro, que não podia ser identificado nem mesmo por especialistas, então o conhecimento do autor do crime apontava que aquele não havia sido só mais um envenenamento.

O assunto logo foi parar na mídia. Advertiser e The News, jornais de Adelaide, cobriram o caso. O Advertiser mencionou o caso pela primeira vez em 2 de dezembro de 1948, com a matéria Corpo encontrado na praia. Confiram o texto:

Um corpo, que acredita-se ser de E. C. Johnson, de aproximadamente 45 anos, da Rua Arthur, Payneham, foi encontrado na praia de Somerton, defronte ao Crippled Children's Home. A descoberta foi feita pelo Sr. J. Lyons, da Estrada Whyte, Somerton. Os detetives H. Strangway e Constable J Moss, estão investigando.



Quando tudo parecia perdido, uma luz surgiu no fim do túnel. Em 14 de janeiro de 1949, funcionários da Estação Ferroviária de Adelaide encontraram uma mala marrom, cuja etiqueta havia sido removida. A mala fora colocada no guarda-volumes da estação às 11 da manhã de 30 de novembro do ano anterior. Dentro dela havia um roupão vermelho, quatro pares de cuecas, utensílios de barbear, pijamas, um par de calças com as barras sujas de areia, chave de fenda, faca de mesa adaptada para servir de instrumento de corte curto, par de tesouras, como as utilizadas em navios mercantes.


Também encontraram a embalagem de linha de costura laranja. Todo e qualquer tipo de identificação havia sido removido das roupas, exceto por um "T. Keane" numa gravata, "Keane" em um saco de lavanderia e "Kean" (sem o último e) em uma camiseta. As roupas foram rastreadas até um marinheiro local, Tom Keane. Ele não foi localizado, e alguns de seus colegas foram até o necrotério identificar o cadáver. Eles negaram que aquele era Keane, e tampouco as roupas eram suas. As buscas não encontraram nenhum outro T. Keane desaparecido, em nenhum país.

O único objeto da mala que pôde ser aproveitado era um casaco com uma nesga frontal um desenho bordado. Foi decidido que ele havia sido confeccionado nos Estados Unidos, uma vez que, na época, o país era o único com o maquinário necessário para fazer tais coisas. Os casacos eram produzidos em massa, mas a nesga só era costurada após o usuário experimentá-lo. Como a roupa não havia sido importada, o usuário comprou pessoalmente ou comprou de alguém.

Levando em conta registros ferroviários, a polícia concluiu que o homem desembarcou de um trem noturno que teria vindo de Melbourne, Sydney ou Port Augusta. Era possível que o homem tivesse se barbeado e tomado banho no prédio vizinho, no chuveiro público municipal, antes de voltar para a estação e comprar um bilhete para as 10h50, para Henley Beach. Por alguma razão, ele não esteve nesse trem. Quando voltou do chuveiro público, deixou a mala no guarda-volumes e foi para Glenelg, de ônibus. Pesquisas feitas pelo professor Derek Cabbot indicam que ele pode ter comprado a passagem antes de ter tomado banho. Como as instalações sanitárias da estação estavam fechadas e, levando em conta que o homem não sabia disso, tal coisa justificaria seu atraso para pegar o trem, e ter embarcado no próximo ônibus disponível.




Na mesma época em que o inquérito foi realizado, encontraram um pedaço de papel num compartimento secreto num dos bolsos da calça do homem. Nele, estava escrito "Taman Shud". Oficiais da biblioteca pública foram chamados para traduzir as palavras, que poderiam ser traduzidas como "fim" ou "terminado". Tal frase é encontrada na última página da coleção de poemas Rubaiyat, de Omar Khayyam. Entretanto, no idioma original, o persa, a transliteração seria "Taman Shod" ou "Tamam Shud". 

O verso do papel estava em branco. A polícia rondou a Austrália em busca de um exemplar do livro que estivesse nas mesmas condições que aquele papel, mas foi em vão. O papel foi divulgado à mídia, e uma pessoa acabou revelando que encontrou uma rara primeira edição de Rubaiyat traduzida por Edward FitzGerald e publicada na Nova Zelândia pela White and Tombs. A pessoa encontrou o tal livro no banco traseiro de seu automóvel, que estava destrancado e estacionado em Glenalg na noite de 30 de novembro de 1948. Essa pessoa não sabia da relação do livro com o caso até ver o artigo de jornal no dia anterior.



O livro não tinha as palavras "Taman Shud" na última página, cujo verso estava em branco. Exames detectaram que a última página havia sido arrancada. Abaixo, você pode conferir o último verso, que vem logo antes de "Taman Shud":


And when thyself with shining foot shall pass

Among the Guests Star-scatter'd on the grass

And in your joyous Errand reach the Spot
Where I made One - turn down an empty Glass

Essa primeira edição, a qual foi publicada pela White and Tombs, usa a palavra "shining" em vez de usar a palavra "silver", que foi adotada nas edições seguintes. Nas costas do livro, havia algumas anotações feitas a lápis, e somente com o exame ultravioleta foi possível ver com clareza o que estava escrito: cinco grupos de letras maiúsculas, sendo que o segundo grupo estava riscado. As letras foram consideradas significativas após a análise da quarta linha, uma vez que ambas eram bem parecidas. O risco sugeria que um erro havia sido cometido, como se as letras fossem um possível código. Confira:

MRGOABABD
MLIAOI
MTBIMPANETP
MLIABOAIAQC
ITTMTSAMSTGAB










Um número de telefone também estava nas costas do livro, e o mesmo não foi encontrado em nenhum catálogo telefônico. Entretanto, encontraram sua dona. O número pertencia a uma ex-enfermeira residente na rua Moseley, em Glenelg, localizada a 800 metros de onde o homem foi encontrado. A mulher afirmou que, durante o tempo em que trabalhou no Royal North Shore Hospital, em Sidney, durante a Segunda Guerra Mundial, era dona de um exemplar do Rubaiyat. Porém, em 1945, no Clifton Gardens Hotel, em Sidney, deu o livro de presente a um tenente do exército, Alfred Boxall, que servia na seção de transporte de água do exército australiano.

Após a guerra, a ex-enfermeira mudou-se para Melbourne e se casou. Tempos depois, ela recebeu uma carta de Boxall, e lhe respondeu que já havia se casado. Também disse que, em 1948, um homem misterioso perguntou ao seu vizinho de porta sobre ela. Tendo como base o busto de gesso do homem, ela não conseguiu identificá-lo como sendo Boxall.

Mas ele não era Boxall. A polícia o encontrou vivo, com seu exemplar de Rubaiyat, que continha a última folha. Boxall estava trabalhando no setor de manutenção do Depósito de Ônibus de Randwick (lugar onde trabalhou antes da guerra), e não tinha ideia de uma possível ligação entre ele e o homem morto. No frontispício do livro, a ex-enfermeira havia anotado o seguinte:

Indeed, indeed, Repentance oft before
I swore--but was I sober when I swore?
And then and then came Spring, and Rose-in-hand
My thread-bare Penitence a-pieces tore.


A polícia indagou Boxall sobre o trecho, mas ele não respondeu. A ex-enfermeira, agora residente em Glenelg, foi indagada sobre uma possível ligação com o morto, mas negou qualquer coisa, inclusive sua suspeita visita ao bairro em que ela morava na noite em que morreu. Como havia se casado, pediu que seu nome fosse retirado do inquérito, para evitar qualquer constrangimento. Um programa de TV dedicado ao crime, entrevistou Boxall, e um dos narradores chama a mulher de Jestyn, pois era o nome que estava assinado no frontispício do livro. Como o nome era uma possível chave para o mistério ser desvendado, a polícia tratou de investigar a tal Jestyn, mas descobriu que ela morrera em 2007.





O homem foi sepultado no cemitério West Terrance, em Adelaide. Um molde de seu busto foi feito de gesso. O Exército da Salvação se encarregou de fazer a cerimônia, e a The South Australian Grandstand Bookmakers Association arcou com as despesas, para evitar que o homem fosse enterrado como indigente. Anos depois, flores começaram a ser depositadas no túmulo. A polícia questionou uma mulher após vê-la deixar o cemitério, mas ela negou ter qualquer envolvimento com aquele homem. Nessa mesma época, uma recepcionista do Strathmore Hotel, que ficava em frente à Estação Ferroviária de Adelaide, afirmou que um estranho havia se hospedado no quarto 21, no mesmo período da morte, dando baixa no hotel em 30 de novembro de 1948. Ela lembrou-se de que as faxineiras encontraram uma caixa médica preta e uma seringa hipodérmica no quarto.

Aqui jaz o homem desconhecido
que foi encontrado na praia de Somerton
no dia primeiro de Dezembro de 1948


Em 1978, um documentário sobre o caso foi feito. Intitulado The Somerton Beach Mystery, mostrou o repórter Stuart Littlemore conduzindo uma investigação sobre o caso, incluindo Boxall e Paul Lawson, que havia feito o busto de gesso. Paul recusou-se a responder se alguém havia lhe procurado para fazer reconhecimento do corpo.
O caso ainda continua em aberto, e o busto, que contém fibras capilares do homem, é preservado até hoje pela Sociedade Histórica da Polícia do Sul da Austrália.

Jestyn, a tal enfermeira, teve mais um filho, Robin, que era um bebê na época do caso e morreu em 2009. Em novembro de 2013, Kate Thomson, filha de Jessica (Jestyn, morta em 2007), foi a um programa de TV dizendo que sua mãe conhecera sim o homem e mentira à polícia no passado. Segundo Kate, tanto o sujeito quanto a mãe eram espiões russos, e ela seria filha dos dois. Apesar de seus pedidos, a Justiça não concordou em exumar o cadáver e fazer exames de DNA.

Até hoje, a identidade do homem é um mistério, e é pouco provável que isso mude. Mas agora começam as teorias. Jestyn conhecia-o ou não? Quem era Boxall? O que o homem estava fazendo na praia e, acima de tudo, quem ele era? Um espião? Um viajante do tempo?


2 comentários:

  1. Meu Deus... agora eu preciso das respostas! Com esse mistério todo, aposto que ele era mesmo um espião, precisam resolver logo esse caso

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    1. Olha, acho bem improvável que o caso ganhe alguma resposta um dia, mas daria um belo filme haha

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