03/06/2017

[Resenha] Jantar Secreto

Certa vez, num banheiro público, havia um poema:

Não há limites para a mente doentia de um ser humano
Muito menos para a criatividade de um autor.

Jantar Secreto está na minha lista há algum tempo. Como faço vez ou outra, coloquei-o como prioridade em minha wishlist, e literalmente devorei-o. Meu Deus, que livrão da porra. Valeu a pena, valeu muito a pena. Foi meu primeiro livro de Raphael Montes, e agora o motivo de o autor ser tão venerado: ele tem talento de sobra.
Antes de tudo, um lembrete sobre a edição: que livro lindo! Capa branca, bordas das páginas vermelhas. Se isso não é motivo o bastante para te fazer comprar o livro, leia a resenha. Garanto que, no fim do texto, já vai querer estar com seu exemplar em mãos.
O livro conta a história de quatro amigos que deixam o interior do Paraná e se mudam para o Rio de Janeiro, naquele comum sonho de seguir a vida na cidade grande. Dante, o narrador da história; Leitão, um hacker obeso (por ironia, Leitão não é um apelido, mas seu sobrenome); Hugo, que nutre o desejo de ser chef de cozinha; e Miguel, que sonha em ser médico.
Durante um tempo, tudo vai de vento em popa, mas as coisas começam a apertar. Empregos ruins, aluguel do apartamento cada vez maior. Não há muito a ser feito, exceto por uma brilhante ideia, baseada no Enigma da Carne de Gaivota: eles decidem servir um jantar de luxo, mas não é um jantar qualquer. É um jantar de carne humana. É, meus amigos. Eles começaram a servir Bumbum Gourmet. No começo, serviu para pagar as dívidas, o objetivo inicial do jantar, mas os jovens passaram a gostar daquilo. Aquela era uma mina de diamantes negros ainda não explorada, que os deixariam ricos da noite para o dia, ainda mais com Umberto, um dos primeiros convidados e um homem de grande nome no mercado, oferecendo-se para juntar-se à equipe Carne de Gaivota.

Miguel, o mais certinho do grupo, nadou contra a maré tanto quanto pôde. Hugo logo aceitou, pois era sua chance de mostrar quão bom na cozinha ele era. Leitão lidava com a parte burocrática da coisa, uma vez que os jantares eram reservados pela internet. Dante até pensou em não seguiu em frente, mas logo aceitou que aquela era a única chance de se livrar das dívidas.
Deu certo no começo, e só no começo. Como vocês podem imaginar, tudo sai do controle. Dante, antes tão pacato como Miguel, começa a procurar loucamente por homens para sexo casual (ele é gay), e até mesmo participa de orgias, acordando no dia seguinte como se nada tivesse acontecido. Hugo está com o ego cada vez mais inflado, Leitão está namorando uma "boa garota", Cora, que tem o desejo de ser escritora; e Miguel está ciente de que só está fazendo tudo isso por sua mãe, que está fazendo tratamento de câncer e precisa da grana.
O que antes começou com uma simples e ousada ideia acaba se tornando uma bola de neve com proporções gigantescas. Os garotos já não mandam mais em nada, e Umberto tem muito mais influência do que demonstra. Não dá para confiar em mais ninguém. Nem em si mesmo.
Como havia dito no começo da resenha, não há limites para a crueldade humana, muito menos para a criatividade de um escritor. A cada página, você sente raiva e repulsa de tudo o que está acontecendo, mas sente-se tentado a continuar. Assim como Dante, você quer descobrir como tudo vai acabar. Já não resta um pingo de humanidade ali.
Raphael Montes dá um show de escrita. A história é contada de maneira fluente e descontraída, uma vez que ela é contada por jovens que moram no Rio de Janeiro. Não há como ser mais descontraído e legal que isso. Gírias, tecnologia. Há até mesmo um capítulo apenas com prints do Whatsapp e memes. Isso mesmo, você não leu errado.
Talvez você, leitor, não esteja tão acostumado com isso, mas o livro é narrado como os livros em inglês, ou seja, os diálogos são com aspas, e não com travessões. Entretanto, isso não muda de maneira nenhuma a narração da história. Muito pelo contrário. Você não vê a hora de chegar no final e ver se todo mundo envolvido nessa merda teve o que merecia.
Raphael Montes merece o prestígio que recebe, e agora sei os motivos. Ele é a prova viva, assim como Eduardo Spohr, que a literatura nacional tem sim, livros de qualidade. É, eu sei. Como autor, posso dizer que não é nada fácil dizer que é escritor aqui no Brasil, mas esses carinhas me motivam a seguir em frente com meu sonho. Dias Perfeitos, publicado em 22 países e Suicidas, seu primeiro livro, que será republicado pela Companhia das Letras, serão adaptados para o cinema, assim como Jantar Secreto.
Torço pelo sucesso de Raphael Montes, e sigo em frente sabendo que Jantar Secreto é um dos melhores livros que li na vida. E de uma coisa eu sei: nunca mais olharei para uma gaivota da mesma forma:

Nota:

6 comentários:

  1. A resenha ficou muito boa *-* E eu vou querer esse livro emprestado u.u, sempre fico empolgada quando vc lê um livro rápido assim ( e ainda diz que foi um dos melhores que já leu) huehue

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    1. Obrigado *--*
      Claro que te empresto. E eu já disse. Se eu li em dois dias, é bom kkkk

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  2. Amei a resenha! Fiquei ainda mais curioso em ler este livro!

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    1. Pode ler sem medo, cara. O livro é maravilhoso!

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  3. Já queria ler Jantar Secreto, depois da sua resenha fiquei mais curiosa ainda, pois eu não sabia exatamente do que se tratava antes, apenas queria ler porque QUE CAPA LINDA!
    Sempre falam muito bem da escrita do autor, e pra ter filmes adaptados deve ser incrível mesmo, ainda mais sendo um autor nacional, que normalmente não tem esse espaço. Dá um certo orgulho.
    Lerei o quanto antes!

    Virando Amor

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    1. Miga, eu comprei ele e literalmente devorei. Sério, pensa num livro modafoca. Foi meu primeiro livro dele, e me arrependo amargamente por não ter lido nada dele antes. Como eu disse, ele merece todo o sucesso que tem, porque o cara tem talento. Como você disse, dá orgulho ver um autor nacional ganhando essa repercussão.

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